A culpa é da minha sogra.

Em 1999, eu ainda namorava a mulher que viria a ser minha esposa quando sua mãe, Raquel Chagas, viu o computador que eu tinha em casa. Computadores pessoais ainda eram uma novidade para muita gente e ela, uma mulher de fé, olhou para aquela máquina com muito menos entusiasmo do que eu.

“Isso aí tem Bíblia? Se não tem, não quero.”

Tinha. Mas a pergunta dela acabou me levando a outra: o que um computador poderia fazer com a Bíblia que um livro não podia?

Eu não queria apenas colocar as Escrituras numa tela. Queria encontrar uma passagem mesmo quando não lembrasse as palavras exatas. Porque não é assim que normalmente nos lembramos da Bíblia. Lembramos das histórias, das pessoas, dos acontecimentos. Lembramos da multiplicação dos pães — mas a palavra “multiplicação” não precisa estar no texto bíblico para que a história esteja lá.

Para um computador daquela época, isso era um problema quase insolúvel. Ele sabia procurar palavras. Não sabia o que era uma história.

Foi então que pedi ajuda ao meu pai, Josias Terenzi Pinto.

Meu pai era pastor e já havia lido a Bíblia dezenas de vezes ao longo da vida. O que eu precisava estava, de certa maneira, na cabeça dele: onde começavam e terminavam as histórias e passagens que compõem as Escrituras.

Ele pegou a Bíblia e um caderno e começou a transformar esse conhecimento em algo que eu pudesse levar para o computador. Anotou as perícopes — as unidades de sentido do texto bíblico — seus limites e seus títulos.

Foram 2.970 perícopes, anotadas à mão, uma por uma.

Enquanto ele fazia isso, eu tinha outro pequeno problema: minha Bíblia digital era um arquivo TXT. Texto puro.

Para transformar aquilo em algo que um programa pudesse compreender, tive de estruturar mais de 31 mil versículos, separando livros, capítulos, versículos e o próprio texto bíblico. Depois, transcrevi para o computador as milhares de anotações que meu pai havia feito no caderno.

Mas ainda faltava alguma coisa. Eu não queria que o computador soubesse apenas onde uma história estava. Queria que ele soubesse quando aquela história continuava — ou aparecia novamente — em outro lugar da Bíblia.

Então comecei outro trabalho manual. Usando um formulário que permitia registrar até quatro referências para cada passagem, fui conectando uma perícope a outras relacionadas a ela.

Foram 1.064 referências inseridas manualmente, uma por uma.

Aos poucos, aquele TXT deixava de ser simplesmente uma Bíblia digital. Por trás do texto começava a existir uma estrutura: versículos pertenciam a passagens, passagens tinham significado e passagens podiam levar a outras passagens.

A ideia atravessou os anos muito melhor do que as tecnologias que tentei usar para realizá-la. Houve Ruby on Rails, depois Python, bancos de dados, novas versões e recomeços. E houve a vida acontecendo no meio disso tudo.

Meu pai faleceu em 2013. Ele não chegou a ver o trabalho concluído.

Em 2026, quase três décadas depois daquela pergunta de Raquel, voltei ao projeto mais uma vez. Desta vez, porém, a tecnologia finalmente parecia capaz de alcançar a ideia.

E aquela base feita a partir do caderno do meu pai ganhou um nome: JOTEPPI — Josias Terenzi Pinto Pericope Index.

Hoje o JOTEPPI faz parte de algo maior. Depois de anos de consolidação, comparação e revisão de outras fontes, o Canon do SABER reúne 3.358 perícopes. Mas aquela estrutura original continua lá, na raiz do sistema.

É por isso que o SABER não precisa tratar um resultado como um versículo solto. Ele pode encontrar a passagem à qual aquele versículo pertence e mostrar o contexto ao redor dele.

E é por isso também que aquela velha ideia da “multiplicação dos pães” finalmente funciona. Você pode procurar algo de que se lembra mesmo quando a palavra que está na sua memória não aparece literalmente no texto. Encontrada a história, o SABER pode seguir suas passagens relacionadas em sequência. E, se quiser ir além, você pode colocar ao lado outra versão da Bíblia ou outro idioma e comparar os textos sem perder o fio da leitura.

Ainda estamos construindo. Novas versões e idiomas estão sendo preparados, as relações entre passagens continuam sendo ampliadas e revisadas, e a busca contextual continua evoluindo. O SABER é totalmente gratuito — e sempre será.

Mas a ideia mudou muito pouco.

Tudo começou com Raquel querendo saber se aquele computador tinha Bíblia, comigo imaginando se uma máquina poderia encontrar histórias em vez de apenas palavras, e com meu pai transformando décadas de conhecimento das Escrituras em 2.970 anotações feitas à mão num caderno.

Meu pai não chegou a ver o SABER pronto. Mas o SABER eterniza o trabalho do meu pai.

Paulo TerenziSABER.Bible